O artista marginal e o embuste do edital

Por Marivânia Moura*

“Eu acho que o governo do Estado não vá me chamar para tocar num evento seu. Eu acho que o governo do Estado tem seu time. Eu não estou nesse time. É uma situação hipotética inimaginável. Eu sou um marginal”.

Em entrevista ao Jornal Vias de Fato, em agosto de 2013, o cantor e compositor Marcos Magah falou ao jornalista Zema Ribeiro e ao antropólogo Igor de Sousa, da possibilidade de participar das festividades do calendário oficial. No governo estadual da época, estava encerrando seu quarto mandato a herdeira do legado de José Sarney, sua filha Roseana Sarney.

Aquela época todos (ou a maioria de nós), estávamos ansiosos com a possibilidade de mudar as práticas políticas no Maranhão com o processo eleitoral de 2014. Nossa expectativa passava, necessariamente, pela derrota do então grupo oligárquico capitaneado por José Sarney. Em 2013 eu estava concluindo o mestrado em história social na UFMA, onde discutia a cultura política em São Luís.

Na ocasião dizíamos que a presença de José Sarney (e seu grupo/máfia) era uma parte do problema político em nosso Estado. O problema maior é a cultura política oligárquica predominante no nosso imaginário social. Uma cultura política do privilégio, do medo, baseada nas relações pessoais, na confusão entre o público e o privado, no autoritarismo.

Infelizmente uma cultura política não se muda de uma hora para outra. No processo histórico as mudanças do imaginário social, as mentalidades, como as chamamos, são como placas tectônicas, se transformam muito lentamente. Diferente das mudanças sociais e políticas, que operam no curto e médio prazo. Sendo assim, é preciso encarar com coragem e seriedade as permanências da cultura política oligárquica no governo Flávio Dino, sem receio de ser acusado de sarneysista.

Quando em 2015 o compositor Marcos Magah foi convidado pela Secretaria de Cultura do Estado, na gestão da professora Ester Marques (Governo Dino), muitos perguntaram “e aí Magah, qual teu contato (tem peixe) dentro da secretaria?”. Quem fazia tal pergunta eram músicos, artistas da cena local.

Magah é um sujeito totalmente desprovido de jeito para os contatos sociais. Se tem alguma habilidade, é para transformar tragédia em poesia. Se tivesse algum traquejo nos contatos sociais já teria gravado seu álbum O HOMEM QUE VIROU CIRCO, aprovado pela lei de incentivo estadual (2013), mas que não conseguiu fazer a captação porque não tem os contatos “importantes”.

Magah não vota, não acredita no Estado, na forma como as coisas estão estruturadas politicamente. Não acredita, portanto, nos editais de credenciamento do atual governo. Mas eu achei interessante a publicação dos editais (como sou ingênua!), fiz questão de inscrever o trabalho de Magah nos editais de ocupação artística. Escolhi o edital de ocupação do espigão costeiro (Nº 7/2017), publicado em 24 de maio de 2017, para ser cumprido no segundo semestre. A exigência da documentação era de desestimular qualquer cristão: certidão negativa de débitos fiscais, tributários, previdenciários, trabalhista, etc. Enquanto organizava a papelada, Magah, usando de seu característico humor sarcástico, me perguntou: “ainda não te pediram a foto da Vera Fischer autografada?”.

Marcos Magah 03
O cantor e compositor Marcos Magah. Foto: Divulgação

O resultado dos grupos aprovados na categoria banda/show foi publicado em 8 de julho de 2017 e assinado pela senhora Vanessa Barbosa Leite, secretária adjunta de Estado da Cultura e Turismo e também Presidente da Comissão de Credenciamento.

Ao se aproximar do fim do segundo semestre entrei em contato algumas vezes (via aplicativo de celular) com um funcionário da Sectur para saber do edital, uma vez que precisava ter uma data do show, o mesmo dizia não saber de nada, que eu procurasse a senhora Vanessa Leite. Qual não foi nossa surpresa quando a própria secretária adjunta entra em contato com Magah via facebook (dia 7 de dezembro) dizendo que o artista havia cancelado o show.

Como assim?!!!

Sem argumentos para uma explicação razoável, a secretária adjunta disparou: “Marcos, você já esteve em programação. Então agora devera esperar nova oportunidade”

Ela deveria estar se referindo à participação do artista na programação oficial  em outubro de 2015, daí pensei: é a lógica das relações clientelistas onde a gratidão eterna é o valor esperado de quem é beneficiado. NÃO, NÓS NOS NEGAMOS A ESSA SUBMISSÃO!

Se o artista foi convidado a prestar serviço à Secretaria de Cultura, deve ter sido por algum mérito e não por amizades ou qualquer tipo de colegagem, uma vez que o mesmo vinha de uma intensa agenda de shows desde 2013.

A ARTE NÃO SE RENDE!

Magah segue sendo um artista marginal, um homem lúcido e perigoso pensando por conta própria, assumindo o peso de suas escolhas. Talvez lhe falte uma LAMPARINA, uma luz que ilumine seu caminho nas trilhas do espinhoso caminho dos editais. Enquanto a Secretaria de Cultura continua a publicar editais de faz de conta, embustes pra disfarçar as permanências das práticas oligárquicas na atual gestão cultural.

*Marivânia Moura é Mestre em história social e professora da escola pública.                 

            

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