Vias de Fato

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“O carvão virou ouro”

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Cynthia Carvalho Martins1 e Davi Pereira Júnior2

A expressão título desse artigo remete para o valor que o carvão vegetal passou a ter diante da escassez do recurso e da potencialidade de exploração de minério da Serra de Carajás. O carvão chega a ser comparado ao ouro, produto explorado nas extrações auríferas, principalmente do Pará e Mato Grosso, mais intensas em outros momentos.
As estratégias empresariais vêm se reconfigurando a cada período e a produção do carvão passou a incorporar o carvão do coco inteiro de babaçu com novas formas de exploração da força de trabalho. Os próprios empreendimentos empresariais de eucalipto, localizados na região tocantina, passam a utilizar o eucalipto para produzir carvão. Os projetos de reflorestamento do Maranhão são constituídos por eucaliptos para produção de carvão e florestas nativas estão sendo destruídas para dar lugar a essa cultura homogênea.
O carvão, antes repassado como uma dádiva entre famílias vizinhas, em momentos de doença, quando as mesmas não podiam prepará-lo nas chamadas caeiras, passa a ser recurso escasso. Percorrendo as casas dessas famílias percebemos que poucas possuem fogão, não usado com freqüência em função do preço do gás. Essas famílias estão com dificuldade de conseguir o carvão para cozinhar, diante do avanço na investida dos chamados intermediários que compram o coco para as siderúrgicas. Os cachos de coco estão sendo arrancados verdes e queimados. Há relatos de roubo de carvão, situação inimaginável há um tempo.
O projeto “Nova Cartografia Social da Amazônia” publicou o fascículo n° 27 intitulado “A luta das quebradeiras de coco contra o carvão do coco inteiro – Bico do Papagaio”, e o fascículo nº 28 “Mulheres quebradeiras na defesa do babaçu e contra as carvoarias, do Médio Mearim”. O primeiro foi uma realização do Movimento Interestadual das Quebradeiras de Coco Babaçu-MIQCB e o segundo realizado pela Associação das Mulheres Trabalhadoras Rurais-AMTR, de Lago do Junco e Lago dos Rodrigues, com apoio da Associação em Áreas de Assentamento no Estado do Maranhão-ASSEMA.
No Mearim foram mapeadas as áreas de exploração do coco inteiro; carvoarias, antigos fornos móveis, áreas de conflito em função do coco retirado para carvão; área com trabalho escravo, barracões e outros. No mês de abril de 2008 percorremos os municípios de Bacabal, Pedreiras, Trizidela do Vale, Igarapé Grande, Bernardo do Mearim, Lago do Junco, Lago dos Rodrigues, Lago da Pedra e Peritoró para levantar as situações que compõem o mapa do fascículo sobre a exploração do carvão. Em junho percorremos os municípios do Pará e da região de Imperatriz.
Observamos que diante da pouca existência de áreas de floresta nativa, já  bastante devastada, as siderúrgicas passaram a explorar o carvão do coco babaçu inteiro. Além disso, as siderúrgicas localizadas em Açailândia precisam de uma quantidade exorbitante de carvão para beneficiar o minério. Esse carvão é comprado dos carvoeiros que trabalham para uma pessoa que arrenda áreas de fazenda para retirada de coco inteiro. Os carvoeiros que se instalam no meio das matas e trabalham em regime de escravidão, inclusive, alguns deles são trabalhadores rurais que se tornam carvoeiros em determinados momentos do ciclo agrícola.
Essa situação, caracterizada pelos chamados fornos móveis, que são deslocados freqüentemente quando o recurso fica escasso, foi presenciado no Mearim, onde identificamos as seguintes situações: quebradeiras sem terra em Igarapé Grande que para coletar o coco são obrigadas pelos donos das terras a fazer o roça das soltas, ou seja, preparar o terrenos para o plantio do capim em troca dos cocos; quebradeiras que trabalham no sistema de meia onde um atravessador compra  coco de uma área de fazenda, leva para um barracão para ser quebrado pelas mulheres;
Na região tocantina presenciamos as seguintes situações: fornos móveis da Terra Norte; fornos fixos de carvão de eucalipto; carvoarias de coco inteiro; sistema barracão; fornos privados de carvão de eucalipto e fornos de carvão de madeira. Os limites territoriais são reconfigurados e o coco inteiro do Maranhão, principalmente de Amarante, é todo escoado para a Terra Norte, siderúrgica de Marabá. Inexiste qualquer fiscalização do coco inteiro que passa de um estado a outro.
Nas áreas onde há organização das extrativistas a exploração de carvão é menos intensa e praticamente inexiste a venda do coco inteiro. Os caminhões são impedidos de entrar e já ocorreram inclusive conflitos com a derrubada de cocos das caçambas, principalmente em Lago do Junco. Entretanto, quando se trata das quebradeiras de coco que moram nas periferias das cidades, a situação se agrava. Elas não têm acesso à terra e precisam do coco. Em função dessa dependência se submetem a permanecer o dia inteiro quebrando coco no denominado barracão. Repassam todas as cascas para o dono do barracão e vendiam as amêndoas, no período da pesquisa, por até R$ 0,45. Segundo M. J, a situação é difícil, entretanto, ela não tem outra saída, “a situação é ruim, só que se acabar com esses barracões faz é piorar”. Trata-se de uma situação que revela a exploração e as contradições do modelo de desenvolvimento implementado em países periféricos.

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1 Antropóloga, professora da UEMA, coordenadora da especialização “Sociologia das Interpretações do Maranhão”.


2 Historiador e especialista em “Sociologia das Interpretações do Maranhão”, mestrando do curso de Pós Graduação em Antropologia da Universidade Federal da Bahia.