Vias de Fato

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O Comício de Bacabeira

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Emilio Azevedo

No mês passado, Lula esteve no Maranhão. Não veio para cumprir as funções de um Presidente da República. Veio, na verdade, como um cabo eleitoral. É fácil constatar que as promessas feitas junto com a tal pedra fundamental da refinaria e toda a mídia em torno do evento, teve como único objetivo ajudar a melhorar os índices de popularidade do grupo Sarney, cada vez mais comprometidos pelos anos de desmandos e pelos recentes, inúmeros e sucessivos escândalos.

A possibilidade de instalação, no Maranhão, de uma refinaria da Petrobrás vive hoje cercada de dúvidas e especulações. Entre as certezas, está apenas o fato de que o ato ocorrido em janeiro, em Bacabeira, com a presença de Lula, Sarney, Roseana, Lobão e Dilma Rousseff, foi simplesmente um comício. Um sinal de que a oligarquia já começou a sua campanha de 2010.

Em 2006, Lula fez um comício em Timon, no encerramento da campanha de Roseana. Em 2010, veio participar da largada deste “novo” projeto eleitoral. Essencialmente, foi isso que aconteceu. O assunto (refinaria) serve apenas para o discurso em cima de um palanque. Serve para que os candidatos possam prometer milhares de empregos e alardear um “desenvolvimento”, tão incerto, quanto suspeito.

É a velha e conhecida “promessa de campanha”. A imagem dos candidatos em cima de um trator, junto com Lula, além do ridículo natural de toda demagogia política, lembra aqueles vereadores picaretas que, em ano de eleição, sobem nos carros que a prefeitura utiliza para fazer obras eleitoreiras na chamada periferia. Outra imagem risível, produzida em Bacabeira, foi Roseana pousando no meio das ditas autoridades. A filha do coronel parecia uma dondoca debutando: cafona, insegura e deslumbrada.

Mas, deixando de lado estas cenas grotescas, o fato é que a implantação de uma refinaria próxima a ilha de São Luís depende de vários fatores, inclusive, da eleição do próximo Presidente da República. A obra, se acontecer, é responsabilidade e iniciativa da Petrobrás e sua realização está submetida, entre outras coisas, à política do próximo governo federal. A Petrobrás é uma empresa de capital aberto (sociedade anônima), mas, seu acionista majoritário é o governo brasileiro. Sendo assim, até mesmo Dilma, caso se torne presidente, pode agir diferente do que está sendo prometido, “de joelhos”, em cima de um palanque.

Petrobrás sobe no palco - O atual presidente da Petrobrás, Sérgio Gabrielli, esteve na Câmara dos Deputados no dia 29 de setembro do ano passado. Indagado pelos parlamentares maranhenses sobre este assunto, ele disse: “Entendo a ansiedade dos deputados e senadores do Maranhão. Mas eu, como técnico, tenho a obrigação de ser realista. Uma refinaria leva de sete a oito anos para começar a produzir. Não há como ser menos que isso”.

Ansiosa por fazer uma campanha publicitária falando da refinaria a oligarquia maranhense não gostou da declaração. E assim, concentrou suas forças junto ao governo federal para que fosse logo assinado “um termo de compromisso” entre o governo do Maranhão e a Petrobrás, fato que ocorreu no dia 14 de outubro, portanto, quinze dias após a declaração do presidente da empresa. Neste ato de assinatura, amplamente divulgado pelo Sistema Mirante, estiveram presentes o mesmo Sérgio Gabrielli, Roseana e Lobão, ministro de Minas e Energia e preposto da organização Sarney junto ao governo federal.

Com os holofotes da mídia governista ligados, Gabrielle foi para o centro do “palco” e cumpriu seu papel na “ópera-bufa”. Ao falar da refinaria, disse: “Será uma obra estruturante e importante para elevar o Maranhão a um novo status de estado economicamente forte e ativo no cenário nacional e mundial”. Aí a declaração já não foi mais do técnico, mas sim, do presidente de uma empresa que sofre enorme influência do poder público federal, no caso, do governo Lula, o já citado cabo eleitoral.

A “micaretagem” - O documento assinado entre o governo do Estado e a Petrobrás, estabelece os compromissos entre as partes na viabilização das condições necessárias para a implantação do empreendimento. Logo, se as condições não forem viabilizadas, o empreendimento não acontece. Mas, no segundo semestre deste ano, haverá eleições. E Lula quer eleger Dilma e Sarney quer eleger Roseana. E Lula acha que precisa ter o PMDB na campanha e Sarney sabe que Roseana precisa superar sua enorme rejeição. Então, na avaliação deles, o povo do Maranhão “precisa” acreditar que a vinda da refinaria é um fato consumado e ocorrerá brevemente.

Para dar alguma veracidade ao discurso, o governo micareta de Roseana (na definição antológica de Cesar Teixeira) trabalha em alta velocidade. Não em benefício do interesse público, mas sim para criar fatos e ter um discurso de campanha. Para isso, viabiliza licenças ambientais atropelando os prazos, desapropria terrenos e desfaz comunidades na região onde, supostamente, o progresso haverá de chegar. É a barbárie, encoberta pela propaganda!  

E assim, no dia 15 de janeiro de 2010, tivemos o ponto alto da micaretagem: “O Comício de Bacabeira”. Alguém desavisado poderia imaginar que era a inauguração da controvertida refinaria, quando, na verdade, foi o lançamento da campanha de Roseana (e também da pedra fundamental deste discutível empreendimento). No comício, fizeram discursos Lula, Sarney e os candidatos da organização: Lobão, Dilma e a filha do coronel.

O primeiro de todos os discursos, no entanto, foi do presidente da Petrobrás. Este passou “despercebido” da mídia oficial. Diante de toda aquela “micaretagem” em sua volta, Gabrielli tirou sua carta de seguro e disse: “fazer a maior refinaria do Brasil, a quinta do mundo, no prazo que nós temos no Maranhão, nas condições que nós temos, vai ser um desafio”. 

Bem, mas se a refinaria é um desafio evidentemente difícil, a propaganda política não é. 


*Esse artigo foi publicado em fevereiro  de 2010, na edição nº 5 do VIAS DE FATO