Vias de Fato

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Irmã Dorothy no Maranhão

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Sandra Araújo dos Santos*

Em 12 de fevereiro de 2005 foi assassinada no município de Anapu, oeste do Pará, Irmã Dorothy missionária e membro da congregação das Irmãs de Notre de Namur. Ela chegou ao Brasil nos anos 60, respondendo a um chamado do Bispo de Coroatá, que pedia às congregações que enviassem irmãs para trabalharem na evangelização no Maranhão.
Logo que chegou, Irmã Dorothy percebeu e sentiu profundamente no seu ser o sofrimento do povo deste Estado. A pobreza e a violência por que passavam movia irmã Dorothy a se engajar cada vez mais no sentido de ajudá-los no seu processo de libertação.
Ao desenvolver um trabalho no interior do Maranhão, junto às Comunidades Eclesiais de Base, irmã Dorothy ou Dorotéia, como passou a ser chamada pelo bondoso povo maranhense viu e participou de incansáveis lutas do povo para assegurar um pedaço de chão onde pudessem plantar. A oposição era grande, pois os que se diziam donos das terras iam cercando o que era seu e também o que o povo usava para seu sustento. O povo era obrigado a sair por não ter mais onde plantar sem serem incomodados pelos animais pertencentes aos fazendeiros. 
Cansado de tanto lutar, e já sem lugar onde plantar e colher, o povo maranhense começou uma enorme procissão rumo ao Pará. Saíram à procura de terras para cultivar e alimentar suas famílias.  Dorothy vendo o povo migrar também arrumou suas malas e o seguiu.   
IRMà DOROTHY: Grande cidadã brasileira
Enquanto viveu, essa grande mulher exerceu plenamente sua cidadania, mesmo antes de tê-la formalmente reconhecida.
EXERCEU-A no combate à destruição do meio ambiente – Irmã Dorothy foi mulher de ação e não meramente de palavras. Quando viu acontecendo em sua frente queimadas, desmatamentos ou exploração madeireira ilegais, não hesitou e logo realizou denúncias perante os órgãos competentes, como também encorajou outros a fazerem o mesmo.
EXERCEU-A no combate à exclusão educacional – Como educadora lutou incansavelmente para incluir os excluídos da educação, não somente formal, mas também política. Ao perceber o abandono das populações rurais, a sua falta de acesso a este bem primordial para o desenvolvimento saudável de uma nação, Irmã Dorothy de pronto mobilizou o povo para ir junto às autoridades e cobrar a implantação de escolas e a formação de professores. Em Anapu, na década de 70 do século passado não havia sequer uma escola. Diante deste quadro entristecedor ela buscou parcerias junto ao governo do Estado e aos irmãos de Lassalle, trazendo para aquela região o PROJETO GAVIÃO, um projeto intensivo de formação de professores. 
Neste ano em que a Igreja encabeça a Campanha da Fraternidade com o tema da economia, vale a pena lembrar que Irmã Dorothy ajudou o povo a começar formas de economia solidária, com o fim de contribuir no acesso a bens de primeira necessidade que estes na sua pobreza não desfrutavam. Em exemplo interessantíssimo foram as chamadas revendinhas, que eram pequenas bodegas que cada comunidade tinha e um grupo de mulheres administrava vendendo os produtos a preço de custo, assim numa necessidade imediata não precisariam se deslocar 100, 140 quilômetros para comprar um pacote de açúcar.  As máquinas comunitárias para beneficiar arroz foram outra idéia posta em prática e que deu muito certo.
Irmã  Dorothy em toda a sua prática trabalhou no sentido de empoderar a comunidade para que ela mesma buscasse sua própria libertação. Neste sentido plantou idéias de associativismo como forma de juntar as forças para um melhor exercício da cidadania.
Sua luta ao lado dos pequenos agricultores, maranhenses em sua maioria, continuou até 12 de fevereiro de 2005, quando foi morta com seis tiros a mando de poderosos locais. Sua última luta em Anapu foi pela implantação do Projeto de Desenvolvimento Sustentável, um projeto do governo brasileiro.  
POR QUE ENTÃO MATARAM A IRMÃ DOROTHY?
Por que ela exerceu plenamente sua cidadania, enfrentando costumes e estruturas arcaicas e injustas de há muito estabelecidas neste país, como a má distribuição das terras e o vírus da corrupção. Irmã Dorothy foi assassinada porque quis fazer valer as leis brasileiras a começar pela Constituição Federal.


*Sandra Araújo dos Santos - irmã de Notre Dame de Namur


*Esse artigo foi publicado em fevereiro de 2010, na edição nº 5 do VIAS DE FATO