Lyndon de Araújo Santos*
As relações entre religião e política são inseparáveis na história humana. Desde os tempos antigos, o religioso e o político serviram a interesses mútuos. O sociólogo Pierre Bourdieu compreendeu essa relação na sociedade moderna ocidental, afirmando a homologia entre os campos político e religioso quando emprestam e reproduzem modelos a fim de criar e reproduzir o poder em suas esferas de atuação.
Eis a razão para tantos pastores, bispos e apóstolos ingressarem na vida política e, ao mesmo tempo, muitos políticos utilizarem a religião para ampliar seu capital político e eleitoral. Pastores, bispos, padres e até mesmo pais de santo se tornam conselheiros políticos e mediadores de interesses de grupos, de partidos e de indivíduos.
No Brasil religião e política estabeleceram laços íntimos. Surgimos como sociedade a partir da aliança entre a Coroa e a Mitra, entre a cruz e a espada. A aliança entre o papado e os reis portugueses constituiu-se num projeto colonizador, missionário e fundador de valores, práticas, mentalidades e costumes. Igreja e Estado sempre estiveram próximos legitimando-se reciprocamente, embora não sem conflitos.
Nos fins do século XVIII, Pombal expulsou os jesuítas do Brasil por conta de questões econômicas. Estes conflitos se acentuaram no período do Império quando da ingerência do Estado nos negócios da Igreja e a reação dos seus bispos. Foi a República proclamada em 1889 que trouxe a separação entre Igreja e Estado, no conjunto de mudanças e transformações ideológicas da modernidade.
Republicanos, maçons, positivistas, liberais, protestantes, militares e intelectuais fizeram parte de um conjunto de ações que derrubaram a monarquia. Os sacerdotes católicos deixaram de ser funcionários públicos e a Igreja Católica deixou de ser protegida pelo Estado. Os primeiros quarenta anos de República laica trouxeram mudanças: registros civis de nascimentos e casamentos, enterros em cemitérios públicos, pagamento de novos impostos e o surgimento de movimentos laicos nos campos da política e da cultura.
Na época, um pastor de origem maranhense, Miguel Vieira Ferreira, radicado na capital federal, Rio de Janeiro, levantou uma polêmica acerca da presença de símbolos religiosos em instituições públicas. Tudo começou quando ele se recusou a participar como jurado num tribunal com um crucifixo pendurado na parede. Eram tempos de radicalismos, inclusive religiosos, em torno da questão básica do regime republicano laico.
As reações ao processo de laicização da sociedade não foram poucas. Católicos, sobretudo, pensavam no fim de uma sociedade governada pelos valores cristãos e pela Igreja. Movimentos milenaristas como Canudos na Bahia e Contestado no sul tiveram relações com este momento. Novas ordens religiosas européias chegaram no Brasil e a Igreja teve de rearmar-se para esta nova conjuntura, motivada pelos rumos estabelecidos pelo anti-moderno Concílio Vaticano I. Com Vargas (1930), a Igreja Católica retornou a um lugar de proximidade ao poder público.
Por sua vez, os protestantes viram a República como o momento oportuno de ampliar sua presença na sociedade. Assumiram bandeiras progressistas para a época, sobretudo por meio da educação e da publicação de literatura. Afinados com a ideologia da modernidade, eram a favor da ciência e da tecnologia, da liberdade de culto e da tolerância religiosa, do voto feminino e da alfabetização em massa. Elaboraram críticas à presença do catolicismo como religião outrora oficial e que havia fracassado no seu projeto de cristianizar o Brasil.
Entretanto, essas posturas históricas mudaram profundamente na prática da maioria dos que se autodenominam protestantes ou evangélicos.
Os protestantes, até a década de 1970 no século XX criaram suas instituições e práticas sem a tutela do Estado ou ingerência de governos. Embora tenham sido favorecidos com recursos oriundos de fora, Europa e Estados Unidos, a maioria das igrejas evangélicas construiu seus espaços físicos com recursos próprios. E numa época em que não se vendiam milagres pela televisão e nem se fazia do dízimo moeda de troca com os favores divinos. O voluntarismo dos seus adeptos tornava seus empreendimentos como conquistas do grupo, sem auxílio de governos.
Nas décadas de 1980 e 1990, com extensão para o nosso presente, esta situação mudou. O crescimento numérico - são quase 35% da população brasileira! - deu maior visibilidade aos evangélicos. Foram para a vitrine da mídia as virtudes de um segmento religioso, mas, mais ainda, os seus defeitos e as suas contradições éticas e morais. O moralismo do discurso preocupado com temas pontuais contradiz com práticas que deixam para trás grandes questões éticas. Como disse Jesus acerca dos fariseus de sua época, “coais o mosquito e engolis o camelo”. Ou ainda, enxergam o cisco no olho dos outros, mas não vêem a trave que está diante dos seus próprios olhos.
Este número crescente se tornou potencialmente, em primeiro lugar, um mercado consumidor para produtos evangélicos; e, em segundo, redutos eleitorais controlados por líderes religiosos em suas estruturas centralizadas. O voto evangélico tem sido determinante nas eleições presidenciais do país.
Os escândalos do “é dando que se recebe” e do centrão na constituinte de 1988, o “chute na santa” de 1990, os sacos de dinheiro no Maracanã carregados por pastores, a venda de milagres e produtos “ungidos” e a “oração da propina” são expressões de uma ausência de referencial ético de líderes evangélicos ávidos por poder e prestígio.
A venda de votos evangélicos, os recursos doados para a construção de pisos e telhados de templos, os empregos em assessorias improdutivas, o financiamento da questionável cultura gospel e as alianças “em nome de Deus”, são práticas que se tornaram comuns entre os evangélicos e o poder público. Neste sentido, a Lei no 8.904, de novembro de 2008, que dispõe sobre apoio a "retiros culturais" por parte do Estado, é uma ponta de linha desta relação entre religião e política na atualidade maranhense. Já há quatro anos que o governo do estado vem doando recursos para shows evangélicos e retiros ditos culturais. Neste ano, a semana culminou com um show para cerca de 30 mil pessoas.
Embora os termos da lei possam estar licitamente e legalmente escritos, escapando da possível inconstitucionalidade de um governo laico transferir recursos para credos religiosos, a atitude e a prática inserem-se no questionamento de sua dimensão ética. Esta atitude se situa na não conveniência de uma prática que se liga à cooptação política e troca de favores eleitorais. Além disso, "retiros culturais" é uma expressão que encobre e escamoteia a verdadeira estratégia que é dar dinheiro para a realização de shows evangélicos e retiros espirituais de igrejas.
Estes recursos deveriam ser devolvidos ao erário público e, ao mesmo tempo, abrir-se uma ampla discussão em torno do favorecimento do governo em "doar" recursos públicos para entidades (sejam religiosas ou não), em nome da "arte e da cultura". O fato de que o governo favorece outras religiões em nome da cultura, não justifica que os evangélicos devam fazer parte da mesma prática indevida e inconstitucional. A luta por um estado laico, sem religião oficial e sem favorecimentos a grupos religiosos, foi histórica por parte dos protestantes neste país.
A comunidade evangélica de São Luis não foi convocada em sua ampla maioria e representatividade para discutir tal lei. Por isso, levanta-se a questão em torno dos critérios para se definir para quem ou para qual igreja os recursos devem ser dados. Houve edital público para transferir tais recursos por meio de licitação pública? É assim que todo governo deve proceder, pois estamos numa república laica.
Finalizo afirmando aos leitores deste artigo que há evangélicos e líderes evangélicos que não se deixam levar por tais práticas. Uma boa parte está fora da mídia evangélica e da política oficial. São trabalhadores simples e fiéis aos seus princípios, que procuram ser coerentes com eles. E pagam seus retiros com recursos próprios e sem a preocupação de terem um momento cultural ou de “arte evangélica”. Pelo contrário, os retiros espirituais se caracterizam por um tipo de reclusão religiosa onde há palestras bíblicas, orações, brincadeiras improvisadas e criativas, prática de esportes e comunhão, sem nenhuma intencionalidade de um “evento cultural ou artístico”.
*Lyndon de Araújo Santos
Pastor da Igreja Evangélica Congregacional de São Luis,
Professor do Depto. de História e Diretor do Centro de Ciências Humanas da UFMA, Membro do movimento Evangélicos pela Justiça
*Esse artigo foi publicado em março de 2010, na edição nº 6 do VIAS DE FATO







