Vias de Fato

  • Aumentar tamanho da fonte
  • Tamanho da fonte padrão
  • Diminuir tamanho da fonte

O manto de Penélope: a cultura política da Libertação em questão

E-mail Imprimir

 


Wagner Cabral da Costa*

“Eu liberto, tu escravizas”. Na perspectiva da história cultural, a narrativa das disputas e crises políticas do Maranhão contemporâneo parece um conjugar sem-fim do mesmo verbo, o “Libertês”, em todos os modos, tempos e pessoas. Como se desígnio divino (ou mediocridade humana) houvesse condenado a província a castigo idêntico ao de Sísifo (mortal que ousou desafiar a Morte), sentenciado por Hades (deus dos infernos) a repetir eternamente o mesmo trabalho improdutivo, carregando rochas montanha acima apenas para depois vê-las rolando montanha abaixo. E Sísifo recomeçava a mesma tarefa...
Essa repetição histórica proporciona uma estranha sensação de déjà vu, de já ter assistido ou presenciado os mesmos eventos, é bem verdade que em outros espaços, com outros sujeitos, e, às vezes, com o mesmo ator (de papel trocado ou não). Dessa maneira, a análise inevitavelmente relembra Karl Marx, quando afirmou, n’O 18 Brumário de Luís Bonaparte, que “Hegel observa em uma de suas obras que todos os fatos e personagens de grande importância na história do mundo ocorrem, por assim dizer, duas vezes. E esqueceu-se de acrescentar: a primeira vez como tragédia, a segunda como farsa”. Á luz da história regional dos últimos sessenta anos, até a observação de Marx pareceria insuficiente. Pois, como qualificar a conjugação pela 3a vez? Senão, vejamos:
I)    14 de março de 1951, quarta-feira. A cidade de São Luiz anoiteceu em festas, após a saída de Eugênio Barros do governo. Diplomado em meio a uma escandalosa fraude eleitoral patrocinada pelo senador Victorino Freire, o governador enfrentava, desde sua posse em 28 de fevereiro, uma greve geral que paralisava toda a capital, sob o comando das Oposições Coligadas. Era a Greve de 1951, que promovia a Campanha de Libertação contra o jugo da oligarquia vitorinista, mobilizando milhares de trabalhadores da Ilha Rebelde.
Durante a comemoração, a multidão de “soldados da Liberdade” ouviu um deputado afirmar que “o dia de hoje há de passar à História como o dia da nossa independência política”. Na manhã seguinte, um matutino aproveitou o ensejo para redefinir as fronteiras helênicas, pois a greve fornecera a “mais plena demonstração de que o Maranhão é mesmo a Atenas do Brasil, pelos seus talentos e pelo espírito espartano dos seus bravos filhos”.
Logo, as Oposições iniciaram um esforço deliberado de construção da memória coletiva. Assim, a Praça João Lisboa foi rebatizada de Praça da Liberdade; o 14 de março seria feriado municipal. Um jornalista afirmou que a luta do povo havia elevado “a níveis inéditos a glória de ser maranhense”, tanto que “uma grande empresa cinematográfica” estaria cogitando “produzir um filme baseado no nosso movimento”.
A idéia de um registro épico da balaiada urbana apareceu ainda na proposta da Estátua da Liberdade, para evocar as lutas populares e seus mártires. Conforme o projeto, a estátua destacaria os seguintes “feitos históricos” da tradição política regional: a Revolução de Manoel Beckman (1684); a Adesão à Independência (28 de julho de 1823); a Revolução da Balaiada (1838-1841); e, por fim, a própria Campanha de Libertação (1951).
II)    31 de janeiro de 1966, segunda feira. A cidade de São Luiz acordou em festas com a posse do novo governador, José Sarney, eleito pela Frente de Libertação do Maranhão, num processo que contou com o apoio da ditadura militar. Os jornais da oposição saudaram a data: seria o “Dia da Independência do Maranhão”, o “nosso 7 de Setembro”, o “Dia da Queda da Bastilha”, a “Hora da Libertação”, em que a Ilha Rebelde, receberia o governador para dar início a um “Maranhão Livre e Progressista”, o “Maranhão Novo”.
O significado do acontecimento estava dado: a ascensão das Oposições Coligadas representaria “a mudança radical numa estrutura político-administrativa marcada por 20 anos ininterruptos de corrupção”, sob a tutela de Victorino. Na posse, Sarney enfatizou que “foi preciso que o Governo Federal iniciasse novos métodos para que a oligarquia do Maranhão ruísse, desmoronasse”, pois a vitória teria sido impossível sem “a determinação do governo do Marechal Castelo Branco, no sentido de que as eleições fossem livres e limpas”.
Logo, um documentário foi realizado sobre “o grande acontecimento político”, Maranhão 66, dirigido pelo aclamado cineasta Glauber Rocha e tendo por temas, “São Luís, seus azulejos e contrastes, o interior maranhense, a sua miséria... o Maranhão que Sarney encontrou, com hospitais abandonados, o homem desprovido dos seus direitos, o nosso potencial econômico, flashes impressionantes do Dia da Libertação”.
Entretanto, as intenções épicas anunciadas não se realizaram, pois reações negativas não tardaram, gerando polêmica. Um jornalista comentou que o governador escolhera o diretor “para filmar somente o Diabo na terra onde até o sol mente”. Já outro colunista afirmou que o documentário seria “um testemunho para a história” e “exemplo da decisão dos maranhenses ao condenar erros graves e crônicos e preferir o Progresso e a Liberdade”.
III)    29 de outubro de 2006, domingo. A cidade de São Luiz passou a noite em festas com a eleição do novo governador, Jackson Lago, pela Frente de Libertação do Maranhão. Nas ruas, fogos de artifício, carreatas, buzinas e bandeiras. Trios elétricos repetiam sem cessar o hit de campanha: “É 12, é 12, é 12, é 12, é 12 neles”. No palanque improvisado, o locutor bradava, “agora nós encerramos com a oligarquia, então viva o Maranhão”, apresentando “o seu, o meu, o governador do Maranhão, de todas as famílias”. 
Em seu discurso, Lago ressaltou “a mensagem da brava gente da Ilha Rebelde”, tecendo considerações sobre o significado da vitória, ao afirmar que era “a queda do último bastião do coronelismo no Brasil”, ao lado da Bahia, onde fora derrotado o cacique Antônio Carlos Magalhães, concluindo que “o Maranhão não tem mais dono, é um estado livre, não é mais de uma só família”.
Logo, surgiu a idéia de fazer o registro do “momento histórico”, sendo convidado o aclamado cineasta Sílvio Tendler para produzir Jackson Lago – o Timoneiro da Nau Libertária. A odisséia abordaria as aventuras e peripécias de um Ulysses maranhanguara, a enfrentar tempestades e boqueirões, singrando mearins, preguiças e itapecurus em sua obstinada missão contra a fúria e as artimanhas do todo-poderoso dono do mar.
Dois anos depois, quando o tridente de Sarneydon (profundamente enraizado no Executivo, no Legislativo e no Judiciário da República petista) estava prestes a infligir um “golpe pela via judicial” e cassar o mandato do governador, este, mobilizando o condomínio, convocou as tropas para a nova Balaiada em defesa do governo “democrático e popular”. No entanto, dessa vez, a Ilha Rebelde não saiu às ruas, pois a legitimidade popular se esvaziara.
Déjà vu. Repetição em três tempos, com a mesma estrutura básica de enredo: “fim da oligarquia” e festa popular na Ilha Rebelde; produção de “lugares de memória” e de identidade regional; cinema-documentário e narrativa épica. Contudo, é bom ressaltar, há inúmeras diferenças entre as três conjunturas, as quais, embora oriundas de crises internas da oligarquia e fluentes na mesma linguagem, tiveram resultados distintos em função da correlação de forças existente em cada momento (tema que não poderemos aprofundar em virtude dos limites deste artigo). Assim, nem tudo é mera repetição ou um eterno retorno.
Entretanto, são exatamente estes elementos de média duração ou de permanência em meio às descontinuidades históricas que denominamos de cultura política da Libertação, com o peso da tradição herdada, a reivindicação da identidade regional (a proeminência da cultura ou maranhensidade, na fórmula mais recente), a obsessão pela história e pela memória social (em permanente disputa e reinvenção), além de um dialeto maniqueísta particular (“eu liberto, tu escravizas, ele...”, ou ainda, “tu libertastes ontem, hoje escravizas”) cuja inteligibilidade só existe no interior mesmo do regime discursivo em que funciona, especialmente entre as elites estaduais. Em outras palavras, a cultura política poderia ser definida como “conjunto de valores, tradições, práticas e representações políticas partilhado por determinado grupo, que expressa uma identidade coletiva e fornece leituras comuns do passado, assim como fornece inspiração para projetos políticos direcionados ao futuro” mobilizando utopias, mitos, esperanças e sentimentos (Rodrigo Patto Sá Motta).
Nestes termos, pode-se ponderar, com alguma razão, se essa cultura política não seria apenas cinismo dos políticos (cada qual a seu tempo e modo), os quais a instrumentalizam demagogicamente para se legitimar, evidenciando seus aspectos de farsa e manipulação. Eis uma argumentação cética que ilumina aspectos da (ausência de) vida político-ideológica (o oportunismo e adesismo tão freqüentes), mas, infelizmente, simplifica outros elementos, por não ensaiar compreender as múltiplas motivações da mobilização de elites e de setores populares, nem a dinâmica cíclica do processo político, em vista das várias encenações da saga maranhense, em sua épica de tradição e revolta.
Em chave de leitura similar, poder-se-ia pensar nos conflitos em torno dos imaginários sociais, em que os grupos elaboram estratégias simbólicas disputando a legitimidade do exercício do poder. Desse modo, a permanência do dialeto da Libertação corresponderia à continuidade da estrutura oligárquica patrimonialista, em que o dialeto seria uma necessidade do teatro do poder, sendo um ritual parricida a reafirmar periodicamente os fundamentos da identidade regional, evocando-os no contexto das querelas políticas e na constante reinvenção de uma tradição de liberdade fincada na história e no mito.
Essas e outras ponderações colocam a questão acerca das condições e possibilidades de evolução da cultura política da Libertação nos próximos anos:
a) se poderia se reciclar e permanecer ativa no cenário maranhense, na ligação com setores políticos e sociais específicos, organizando alternativas políticas (democráticas ou ainda patrimoniais e parricidas?) ou simplesmente sendo contraparte do teatro oligárquico;
b) ou se poderia, ao contrário, dissolver-se e perder densidade (sendo substituída por outra configuração político-cultural). Caso em que, distanciando-se das práticas e experiências sociais, o dialeto transformar-se-ia em pura esquizofrenia. Se é que já não se tornou...
Independente do futuro próximo, no entanto, podemos concluir que, na cultura política da Atenas Brasileira, a tão ansiada Libertação remete ao retorno de Ulysses, esse errante e vadio maranhanguara, sempre revivido por novos e velhos atores, mas que nunca volta efetivamente aos braços de sua amada Penélope, a Ilha Rebelde. Contudo, sua ausência justifica a existência e persistência de novos pretendentes, sempre ávidos por ocupar o seu lugar. E assim, Penélope, radiante e bela, permanece à espera do companheiro, enquanto, com arte e astúcia, tece e desmancha, dia após dia, noite após noite, ciclicamente, sonhos políticos de uma Liberdade que está sempre a caminho, perdida no mar agitado da história.


* Mestre em História e professor da UFMA. Agradeço as observações do amigo e prof. Dr. João Batista Bitencourt, que sugeriu a fundamental idéia-imagem de Penélope.