Flávia Regina Melo*
Os últimos anos, marcados pelo redemoinho de acontecimentos políticos que expuseram as vísceras do Maranhão, para todo o País, tiveram também a providencial utilidade de servir como um soco na apatia generalizada aqui instalada. Entretanto, na terra onde rezam lendas de serpentes adormecidas e carruagens mal assombradas, ainda predominam versões fantasiosas e interpretações superficiais em torno da árida realidade social do Estado.
Dois eventos, realizados no mês passado, em São Luís, são um exemplo do fosso que separa ficção e realidade, a produção do conhecimento científico e a realização de obras e projetos de efetiva contribuição social: a VI Jornada Maranhense de Sociologia, paralela ao II Seminário Desenvolvimento, Modernidade e Meio Ambiente, de iniciativa do Departamento de Ciências Sociais da Ufma, e o Painel Empresarial do Maranhão 2009 – Oportunidades e Parcerias, articulado pelo Governo do Estado. Ambos trouxeram à tona o tema dos chamados grandes projetos de desenvolvimento do Estado.
Sob a embalagem de números estratosféricos e apologias a um novo ciclo de desenvolvimento, o Painel Empresarial anunciou um futuro que já chegou, com a devida espetacularização semântica, em frases repletas de efeito e esquálidas de significado consistente, tais como: “enfim, o Maranhão decolou rumo ao desenvolvimento”; “o Maranhão vive o mais alto desenvolvimento do mundo”; “um novo Brasil está acontecendo aqui no Maranhão” e outras tão presentes no cotidiano da maioria da população pobre do Estado quanto um foie gras, acompanhado por taças de champagne Veuve Clicquot. Parte significativa do empresariado e da imprensa local reverenciou, como súditos, a figura de Eike Batista, o bilionário acusado de crime ambiental nas obras do porto do Açu, norte fluminense, e de fraude na licitação da ferrovia do complexo minerador, mais especificamente, do Estado do Amapá. Sobre o supersticioso empresário, há quem desconfie das intenções de seus empreendimentos, com uma frase recorrente: você entregaria seu FGTS a um negócio do Eike?
Mas o evento, profético das riquezas a serem geradas pelos tais empreendimentos, deixou débitos aos que se interessam pelo assunto, com a ausência de respostas mais aprofundadas para questões como: que tipo de desenvolvimento é esse? Desenvolvimento para quem? Um desenvolvimento predatório, na concepção da antropóloga Manuela Carneiro da Costa, cujo modelo é o de mero exportador de commodities? A reducionista divulgação da vinda de indústrias e de “trilhões de reais” ao Maranhão, saudados pelo Painel Empresarial, evidenciou apenas o atraso de tal proposta de modernização, em uma época que o mundo discute as noções de “biocivilização” e “desenvolvimento includente”, propostas pelo economista Ignacy Sachs, professor emérito da Escola de Altos Estudos em Ciências Sociais, de Paris, e co-diretor do Centro de Pesquisas sobre o Brasil Contemporâneo. Segundo ele, desenvolvimento é um conceito relacionado a critérios sociais e ambientais.
Na direção contrária ao empresariado local, os professores e estudantes de Ciências Sociais da Ufma, realizaram debates, exposição de pesquisas sobre temas relacionados aos impactos contemporâneos dos chamados grandes projetos de desenvolvimento. Questões fundamentais à agenda de desenvolvimento do Estado foram pontuadas, sem que a Imprensa local sequer tivesse a mínima curiosidade de, pelo menos, passear pelo evento. A minha vergonha, na condição de jornalista acanhada diante de jovens de 20 anos que relatavam suas experiências em pesquisas de campo relacionadas a migrações de trabalhadores maranhenses, de pescadores que denunciavam o assoreamento da Baía de São Marcos (que, por lixo de navios e outros resíduos, já avança à margem de 2 Km) e outros problemas sociais, só não foi maior porque tive a alma lavada pelo coordenador da iniciativa, o professor doutor Horácio Antunes que, no encerramento, clamou: “A sociedade não pode fazer coro à louvação que a Imprensa local e as autoridades fazem destes projetos”.
Sobre a propalada Refinaria Premium, a história parece próxima daquela notinha “Yes, Alcântara!”, de um famoso colunista social maranhense que, na década de 80, início da implantação do projeto da Base Espacial de Alcântara, profetizava “naves espaciais” e “hotéis intergaláxicos”. Para a nossa desgraça, o Maranhão bocejante da serpente adormecida ainda permanece mais próximo dos Flintstones do que da família Jetson.
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*Flávia Regina Melo é jornalista, com pós-graduação em Gestão da Comunicação pela USP, Universidade de São Paulo.







