Vias de Fato

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A “Madre Superiora” ainda quer o Convento!

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* Por Emilio Azevedo

Em 2009, durante a chamada crise do Senado, José Sarney mentiu muito. Até aí, nenhuma novidade. Mas, o que nem todo mundo sabe é que de todas as patranhas do ano, a maior delas é dizer que vai fechar - por falta de dinheiro - a Fundação que leva o seu nome. Entre os problemas que o senador tem na vida, não está incluída aí a falta, mas sim o excesso e, principalmente, a origem do seu dinheiro.

A notícia é um artifício do oligarca para tentar resolver dois problemas. O primeiro é tentar manter seu acervo, estátua e futuro mausoléu, dentro do Convento das Mercês, prédio público, tombado, que ele vem conseguindo, há quase 20 anos, manter a posse de maneira ilegal. E o segundo é tentar confundir a opinião pública sobre a investigação relacionada com o possível desvio de verbas públicas destinadas aos cofres da desgastada Fundação.

Sobre o Convento, é muito importante, para entender o caso, saber que em junho deste ano a Justiça Federal determinou que a Fundação deve devolvê-lo para o patrimônio do Estado. O Ministério Público Federal foi quem moveu a ação contra a Fundação José Sarney, colocando de maneira muito clara a existência da ilegalidade na doação. A lei brasileira impede que um bem público tombado seja doado para uma instituição privada.

O Convento das Mercês é exatamente um bem público tombado e a Fundação de Sarney uma instituição privada. Apesar disso, mesmo estando escandalosamente fora da lei, Sarney, insistiu em mantê-lo sob seu controle e recorreu da decisão da Justiça. Hoje, o processo encontra-se no Tribunal Regional Federal, em Brasília, esperando o julgamento do recurso.

Quatro meses depois de recorrer da decisão da Justiça, Sarney surge com esta conversa de que não tem dinheiro para sustentar a Fundação. Não é verdade. Para que o leitor tenha uma idéia o mal falado Jorge Murad (genro, aliado visceral e protegido de Sarney) comanda atualmente o Instituto Geia, que edita livros e promove eventos “culturais”. Para tentar limpar o seu colarinho branco, Murad conta com apoio declarado e ostensivo da VALE, ALUMAR, Televisão Mirante, CEMAR, Oi, VCR Produções e Publicidade, UDI Hospital, Ducol Engenharia, Lojas Gabriela, Agropecuária e Indústria Serra Grande, Alpa Máquinas e Veículos do Nordeste, Atlântica Serviços Gerais, Mateus Supermercado, Mardisa Veículos, Bel Sul Administração e Participações, Bange Alimentos, CIGLA, Niágara Empreendimentos, Moinho Cruzeiro do Sul, Rápido London e Sempre Verde.

Todas estas empresas estão com suas marcas na loja Geia/Murad, no maior Shopping de São Luís. São empresários ligados direta ou indiretamente com a “Organização Sarney” e que certamente teriam motivos de sobra para sustentar a Fundação criada unicamente para promover o culto à personalidade do oligarca. A desmoralização não importa, pois quem não tem constrangimento de apoiar o “bom samaritano” Jorge Murad, certamente apoiaria, com entusiasmo, a “Madre Superiora” José Sarney. Eles não enxergam pecados em nenhum dos dois. Está mais do que evidente que o genro, o sogro e todas estas empresas, professam da mesma fé e têm a mesma “devoção” e “amor” pela cultura nacional.  

Por ironia do destino, a Polícia Federal revelou há poucas semanas, que Fernando Sarney, Lobão e demais membros da organização, quando falam ao telefone, sobre tráfico de influência e outros ilícitos, chamam José Sarney de Madre Superiora. O apelido clandestino do oligarca tem relação com a obsessão que ele tem pelo prédio que tomou de assalto e que um dia abrigou um convento da Igreja Católica.

Portanto, como dissemos no início deste texto, é também por conta desta obsessão que a opinião pública foi surpreendida com a notícia dada pela jornalista Mônica Bergamo (Folha de São Paulo) informando que “o ex-presidente José Sarney tomou uma decisão radical”. “Vai fechar a Fundação José Sarney, que mantém, no Convento das Mercês, no Maranhão, todo o acervo do período que ocupou a presidência da República”. Mônica falou sobre o acervo e disse que “é lá também que está o mausoléu onde Sarney queria ser enterrado”.

Segundo Mônica, “a fonte secou”. Sarney teria sido informado que, “depois das denúncias de irregularidades, nenhum empresário ou colaborador queria continuar dando dinheiro a entidade”. Ele disse à jornalista que, para manter a Fundação, “são gastos 70 mil reais por mês”. E ela colocou declarações do senador dizendo: “Não temos mais dinheiro”. “Eu sonhei um dia que o Brasil poderia ter uma grande biblioteca com documentos históricos de um ex-presidente. Mas eu estava errado”. No final da notícia, aquele que o filho travesso chama de Madre Superiora, choraminga que “vai procurar uma instituição para doar todo o acervo”.

A “boa nova” repercutiu rapidamente na mídia nacional.  A intenção de Sarney (propagada por Mônica Bergamo) é apenas o ponto de partida para mais uma das velhas e manjadas chantagens do senador. Da forma como foi dada, a notícia serviu também para reforçar uma confusão entre Fundação e Convento.

Mônica Bergamo fala do fim da Fundação e diz que é lá que “Sarney queria ser enterrado”. A coisa não é bem assim. Sarney não quer ser enterrado na Fundação. Esta pode ser extinta, mudar de nome ou mudar de endereço. Sua mórbida obsessão é deixar seus ossos apodrecendo no Convento das Mercês, no prédio histórico, tombado, que ele tomou de assalto do patrimônio público e que passou a ter a posse ilegal por intermédio dessa fundação de araque.

Nesta história toda sobre a fundação particular de Sarney o que tem valor é o antigo Convento, o local onde ela está instalada. A questão agora é saber se o oligarca, que tantos males provoca ao país e, particularmente ao Maranhão, ainda vai criar novos artifícios para se manter dentro do patrimônio público. Não interessa se é vivo, morto ou moribundo. Com o fim da Fundação ele pode legalizar sua permanência no prédio e a situação que hoje é ilegal e imoral, seria apenas imoral, pois o Patrimônio Histórico do país (e da humanidade) continuaria servindo para a prática nazista do culto à personalidade.

Sobre a extinção da Fundação, após contar com a colaboração da colunista da Folha de São Paulo, o senador esperou a repercussão na imprensa nacional e ato contínuo, acionou seu arsenal midiático no Maranhão e divulgou inicialmente uma nota. Nela, se coloca como um coitado falando “do profundo sofrimento” e da “grande amargura” pelo “caminho a seguir”.

A culpa - ele apontou - é da mídia que denunciou o desvio de recursos públicos da Fundação para empresas fantasmas controladas pela oligarquia. Segundo ele as “denúncias infundadas”, prejudicaram a imagem do que ele chama, “de maior espaço cultural do Maranhão” (o Convento pode ser, mas a Fundação não é). E a picaretagem termina com ele dizendo na nota que o Maranhão “será derrotado”, pois vai perder uma “referência nacional”. A chantagem é feita com a receita de sempre, juntando a pilantragem habitual, o dramalhão, o blefe, a megalomania, o egocentrismo e, certamente, a mentira (se não, não seria José Sarney).

Sobre o que realmente interessa – o Convento das Mercês – a Justiça tem dois caminhos a seguir: pode mandar devolver o imóvel ao seu legítimo dono (o poder público) ou pode manter a ilegalidade, até porque, da Justiça brasileira pode se esperar tudo, principalmente dos tribunais superiores. Nos dois cenários o papel de vítima serve ao senador.

Na hipótese dele se antecipar a uma decisão da Justiça e realmente extinguir a Fundação, o Convento voltaria automaticamente ao poder do Estado, que hoje tem como governadora a filha de Sarney (que coincidência!). Com Roseana no comando ele tem a segurança de como se dará o encaminhamento entre  seu mausoléu, sua estátua, suas quinquilharias e o Convento. Será que alguém imagina Roseana mandando o oligarca tirar os seus cacarecos de dentro do patrimônio público?

É claro que não! Ele, inclusive, já deu a senha, dizendo, cinicamente, que o prejudicado seria o Maranhão. O governo, administrado pela filha do coronel, poderá criar um artifício qualquer para abrigar o propagado e falacioso acervo. Onde? Dentro do Convento das Mercês, obviamente. Homem de máfia, ele, inclusive, já colocou as crianças pobres da banda do Bom Menino das Mercês como escudo. Faz parte da chantagem e da picaretagem.

Bem, e como fica a investigação sobre os supostos malfeitos da Fundação? Continua, mesmo que ela seja extinta. O que nós estamos vendo agora é apenas mais uma etapa de um golpe. Neste novo ato, o dramalhão serve também para manter em alerta todas as forças políticas (incluindo aí o presidente da República) que se juntaram para salvar o mandato de Sarney. E como eles concordaram com todos os desmandos no Senado, haverão de concordar, apoiar e se mobilizar para minimizar os mal feitos da Fundação-Máfia. Como já aconteceu algumas vezes, pode valer tudo para manter o candidato a faraó sob controle.